sexta-feira, 8 de maio de 2020

75 anos da rendição da Alemanha nazi


Conferência de Ialta, 1945
Hoje é evidente que a II Guerra Mundial aconteceu nestes moldes devido ao falhanço da diplomacia. A divergência sentida no interior dos vários governos dificultou o que hoje é mais do que óbvio: a necessidade de uma frente internacional contra o nazismo/fascismo. O ocidente sempre desconfiado do comunismo e da União Soviética acaba por ter uma posição ambígua, fazendo tratados com o nazismo (como foi o caso do acordo de Munique de 1938) isolando a União Soviética e, sobretudo, os sectores soviéticos que defendiam uma aproximação ao Reino Unido. As desconfianças de Estaline e seus aliados sobre o ocidente acabam por minar o trabalho de uma aliança. Richard Sorge, um brilhante espião soviético, que manteve uma relação íntima com a esposa do embaixador alemão em Tóquio, alertou sem sucesso os líderes soviéticos de que estava previsto um ataque à URSS. O sinistro Beria optou por lutar contra o embaixador soviético em Berlim que escrevia relatórios sobre os planos militares de Hitler na URSS. No entanto, uma certa diplomacia soviética nunca deixou de tentar uma [re]aproximação. Se em 1939 o Molotov assinava o famigerado pacto de não agressão com os nazis, em 1941 Ivan Maisky, embaixador soviético em Londres (que curiosamente não é retirado de cena com a queda de Maxim Litvinov), é responsável pelo tratado Sikorski-Mayski com o governo polaco exilado e, deste modo, o Pacto Molotov-Ribbentrop era anulado. Por esta altura, o próprio Churchill (que tinha sido em 1920 um dos fervorosos defensores da intervenção armada contra os bolcheviques) tinha já a noção da importância da aliança com os soviéticos, fazendo o célebre comentário: «se Hitler invadir o Inferno faço pelo menos uma referência favorável ao Diabo na Câmara dos Comuns».
Ivan Maisky com Churchill
Hoje sabemos que o desfecho da II Guerra Mundial foi possível através do trabalho militar e diplomático entre os aliados. Houve a colaboração entre estados, a divulgação de informação militar sensível, o envio de armamento e a colaboração com as resistências locais. A história não é um lugar neutro nem o passado é imutável. As campanhas ideológicas estruturadas na glorificação acabam por dificultar uma visão crítica e histórica sobre o tema. A II Guerra Mundial é a grande tragédia do nosso tempo. Existe ainda alguma controversa nos números de mortes, mas é consensual que a besta nazi tenha despontado 50 milhões de mortes. Se antes da guerra é possível identificar uma figura coletiva de herói contra o nazismo, por exemplo, o caso de milhares de socialistas, comunistas e antifascistas que optaram por lutar contra a ascensão do nazismo e, desse modo, ficaram no lado certo da história, embora eliminado ou em campos de concentração. O historiador Eric Hobsbwam nas suas memórias relata na primeira pessoa como era ser judeu, democrata, socialista e comunista numa Alemanha de terror (Tempos Interessantes, publicado em Portugal em 2005). No entanto, defender esta ideia na guerra é mais complexo. Tenho para mim que não existe nada de herói na guerra, a narrativa heróica é construída à posteriori pelo poder político. Será possível realizar uma história crítica e séria sobre a barbárie dos aliados sem branquear os crimes e a natureza hedionda do nazismo/fascismo? Hoje é inegável que os exércitos soviéticos e britânicos comentaram crimes de guerra. No Japão, os Americanos são responsáveis por duas experiências nucleares sobre civis desarmados. Para tomar Berlim foi preciso combater contra um “exército” de idosos e crianças. A própria libertação dos campos de concentração terá sido, em última instância, uma experiência devastadora para os soldados.
A história da II Guerra Mundial deve ser, mais do que uma história de glorificação, uma introspecção.


 Hans-Georg Henke, criança soldado do exército nazi a defender Berlim

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