Em 1977 o historiador
Philippe Ariès publicava a interessante obra intitulada “O homem perante amorte”, escrevendo sobre o debate existente nas sociedades contemporâneas em
«melhorar a morte no hospital […] mas com a condição de que não saia de lá».
Contudo alertava a existência de «uma falha na cintura medicalizada, por onde a
vida e a morte, tão cuidadosa separadas, poderiam bem juntar-se numa vaga de
tempestade popular: é a questão da eutanásia». Philippe Ariès deslinda o olhar
das sociedades sobre a morte ao longo dos séculos. Enquanto sociedade temos
enormes dificuldades em debater abertamente a morte. Individualmente temos
também essa dificuldade e não será errado supor que todos os marxistas, os
materialistas históricos, ateus e amante da ciência acabem por colocar o
pensamento em contradição e, desse modo, o que outrora era mais do que óbvio é
contestado. No íntimo a ideia metafisica que, de uma maneira ou de outra,
voltarás a estar com os mortos acaba por vencer a lógica. Carl Sagan, no livro
Cosmos, demonstrou que somos construídos da mesma matéria que as estrelas,
narrando que a água é convidativa pois sabemos que é la a nossa origem e, por
isso, desejamos retornar. Todavia, na solidão do pensamento o nosso maior
anseio será o regresso para com os nossos mortos. Se tudo fosse perfeito, no
final seremos mais que matéria e átomos…
Portanto, não é fácil abordar a morte o que, obviamente,
coloca enormes dificuldades em debater a eutanásia. A palavra eutanásia deriva
do grego e significa literalmente “boa morte”, um final sem sofrimento. Tenho
para mim que o debate em torno da eutanásia não é propriamente uma fronteira
entre esquerda e direita e não será uma questão ideológica, embora exista, em
certa medida, uma ligação histórica entre o suicídio e o socialismo (em
Portugal temos o caso de José Fontana e Antero de Quental) que será alterada em
1911 com o suicídio de Paul Lafargue e Laura Marx (uma das filhas de Karl
Marx). É um debate complexo onde é impossível camuflar a nossa experiência.
Infelizmente, todos tivemos alguém a combater no inferno que é o cancro,
hospitalizado com alguma doença incurável ou acamado por incapacidade. Todos
temos um enorme desgaste emocional pelas experiências dos amigos. Portanto, a
experiência pessoal acaba por ser fundamental no debate em torno da eutanásia,
vista por muitos como uma escolha individualista, mas no fundo é uma decisão
centrada no coletivo, nomeadamente, permitir ao coletivo que é a nossa rede de
amigos, família e ao próprio ter a opção de escolha. Pensas na justiça da opção
da eutanásia quando coabitas com o sofrimento, a tristeza e a falta de
dignidade na morte; quando não há cura possível nem cuidados paliativos; quando
a ciência fracassa e a fé não dá força; quando o capitalismo mercantiliza a
medicina e os cuidados de saúde; quando a pessoa solicita ao médico ou à
entidade omnipotente o acesso a uma morte digna.
O debate eutanásia deve estimular e destacar os cuidados
paliativos. Que este debate seja também centrado em torno da salvaguarda do
Sistema Nacional de Saúde. Devemos [re]frisar que a maior parte dos doentes
continua a não ter acesso aos cuidados paliativos. O SNS devia ter mais camas e
melhorar as condições. Somente em 2019 é que foi criado o estatuto do cuidador
é importante aprofundar e consolidar esse processo. É urgente alterar o regime
laboral para os doentes crónicos. Com eutanásia, ou sem ela, uma vida digna passa imperativamente pelo acesso ao combate da doença com dignidade.
Seja qual for o resultado da votação no parlamento, que o
debate seja desenvolvido pela comunidade científica, partidos políticos, constitucionalistas, que se respeite as
escolhas de cada um e, principalmente, que o tema eutanásia não nos dívida mais
do que a própria morte.