O dia 02 de Fevereiro é marcado pela estrondosa derrota Hitler
na ensanguentada batalha de Estalinegrado e, com efeito, o fim da ofensiva militar na URSS (Barbarossa).
Verdadeiramente, a frente leste pode ser caracterizada por uma autêntica
hecatombe humana, nomeadamente nas batalhas de Estalinegrado, de Ursk e de Moscovo. Nesta última (Setembro de 1941 a Abril de
1942) foram mortos 926 mil soldados soviéticos, ou seja, as baixas soviética
numa única batalha ultrapassam as baixas conjuntas da Grã-Bretanha e dos
Estados Unidos ao longo da Guerra. Na batalha de Estalinegrado — uma
das mais sangrentas batalhas da história da humanidade — foram mortos cerca de
800 mil alemães, destruídas 10 mil peças de artilharia e cerca de 2 mil
tanques. Ao passo que, no lado soviético
os números apontam para mais de 1 milhão de soldados mortos. É de frisar que a média de vida de um novo soldado na frente era apenas de um
dia, a batalha estava tão intrincada que houve locais estratégicos da cidade que mudaram de mãos
dezenas de vezes. Como salienta o historiador
Adam Tooze, «nunca antes, nem depois, se travou batalha com tanta ferocidade,
com tantos homens e numa frente de batalha tão extensa»[1].
A batalha pelo controle da cidade ainda tinha uma
forte vertente simbólica, visto que o nome da localidade era uma homenagem a
Estaline. Conquistar Estalinegrado a Estaline significava um reforço da moral
do exército Nazi e, em certa medida, uma mensagem para o resto do globo.
Hoje em
dia é largamente aceite na historiografia que a abertura da nova frente de leste
e, por conseguinte, a invasão da URSS, foi um ponto de viragem no desfecho da
II Guerra Mundial. Porém, a escassez de petróleo na economia Nazi, não deixava
outra alternativa senão a tentativa de conquistar o território soviético. A 1 de Junho de
1942 Hitler apregoava: «a minha principal ideia: ocupar a região caucásica,
esmagar completamente as forças russas... se não recebo o petróleo de Maikop e
Grosny, terei de acabar com esta guerra...»[2].
Importa, salientar que, no entanto, a vitória soviética na frente leste foi condimentada
por um importante contributo dos seus aliados, nomeadamente dos ingleses e dos EUA Se os primeiros estavam em contacto com Estaline, fornecendo
desse modo informação confidencial (decifrada pela máquina Enigma) sobre as
movimentações nazis, os segundos conseguiram fornecer 56 mil telefones de
campanha, 381 milhas de fio para as comunicações e 81 mil metralhadoras
Thompson.
A rendição
do 6º exército Nazi, comandado por Friedrich Paulus, foi a machadada final na
frente leste, citando Eric Hobsbwam, «de Estalinegrado em diante, todos sabiam
que a derrota da Alemanha era só uma questão de tempo»[3].
Portanto,
Estalinegrado foi crucial para o desfecho da II Guerra Mundial, mas também para
a consolidação, e o devido reconhecimento, da União Soviética no plano
internacional. De facto, a posição de negociação de Estaline perante Roosevelt
e Churchill ficou musculada e pujante.
Estaline, que tinha negociado um pacto de não-agressão com Hitler, acaba por
representar o coveiro de
Hitler.
Todavia, a
atitude de Estaline, em sintonia com uma parte da direção do PCUS, nem sempre foi a mais
feliz, perante a ameaça beligerante nazi. É já sabido que Estaline foi
largamente alertado pelos serviços secretos soviéticos sobre um iminente ataque
nazi. Richard Sorge, um brilhante espião soviético, que manteve uma relação
íntima com a esposa do embaixador alemão em Tóquio, alertou sem sucesso os
lideres soviéticos de que estava previsto um ataque à URSS. O próprio líder da
NKVD, o sinistro Lavrenti Beria, escreveu uma carta a Estaline no dia anterior à invasão
nazi, na qual afirmava: «mais uma vez insisto que se convoque e castigue
Dekanozov, o nosso embaixador em Berlim que me continua a bombardear com
«relatórios sobre os alegados preparativos de Hitler para um ataque à URSS.
Indicou que o ataque teria lugar amanhã... Mas eu e o meu assessor, Iosif
Vissarionovich, gravámos indelevelmente na nossa memória a sua sábia conclusão:
Hitler não nos vai atacar em 1941»[4].
Além da
recusa de Estaline em interpretar a valiosíssima informação secreta sobre as movimentações
militares dos exércitos de Hitler, decorreram ainda várias interferências no interior
do exército soviético, facultando desse modo o sucesso militar inicial de
Hitler. Se por um lado, é dada a ordem de proibição à implementação de planos militares de cariz defensivo
contra uma eventual invasão, por outro, o próprio alto comando militar soviético
estava debilitado devido às purgas de 1937-38. Por exemplo, dos cinco marechais
da União Soviética, três tinham sido mortos nessas purgas. É bastante
pertinente relembrar que entre esses três marechais mortos estava o Marechal
Tukhachevsky, que em 1936 afirma categoricamente, na Academia de Formação Geral,
que o inimigo contra quem a URSS devia estar militarmente preparada era, nada
mais, que a Alemanha Nazi. A preocupação deste Marechal estava relacionada com o
ataque relâmpago (blitzkrieg) aperfeiçoado pela máquina de guerra Nazi.
Tukhachevsky foi detido e fuzilado em Junho de 1937.
Embora
«nuca se deve esquecer [...] que a União Soviética perdeu muito mais vidas do
que qualquer outro estado combatente durante a Segunda Guerra Mundial, que o
grosso dessas mortes foi provocado pela barbaridade da invasão Nazi, e que mais
do que qualquer outro país, foram as forças da União Soviética que derrotaram a
Alemanha Nazi na guerra terrestre na Europa»[5].
É indispensável deslindar o papel negligente, particularmente, de Estaline na II Guerra Mundial.
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