sábado, 9 de fevereiro de 2013

70 anos da vitória do Exército Vermelho em Stalinegrado.


O dia 02 de Fevereiro é marcado pela estrondosa derrota Hitler na ensanguentada batalha de Estalinegrado e, com efeito, o fim da ofensiva militar na URSS (Barbarossa). Verdadeiramente, a frente leste pode ser caracterizada por uma autêntica hecatombe humana, nomeadamente nas batalhas de Estalinegrado, de Ursk e de Moscovo. Nesta última (Setembro de 1941 a Abril de 1942) foram mortos 926 mil soldados soviéticos, ou seja, as baixas soviética numa única batalha ultrapassam as baixas conjuntas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos ao longo da Guerra. Na batalha de Estalinegrado — uma das mais sangrentas batalhas da história da humanidade — foram mortos cerca de 800 mil alemães, destruídas 10 mil peças de artilharia e cerca de 2 mil tanques.  Ao passo que, no lado soviético os números apontam para mais de 1 milhão de soldados mortos. É de frisar que a média de vida de um novo soldado na frente era apenas de um dia, a batalha estava tão intrincada que houve locais estratégicos da cidade que mudaram de mãos dezenas de vezes. Como salienta o historiador Adam Tooze, «nunca antes, nem depois, se travou batalha com tanta ferocidade, com tantos homens e numa frente de batalha tão extensa»[1]
A batalha pelo controle da cidade ainda tinha uma forte vertente simbólica, visto que o nome da localidade era uma homenagem a Estaline. Conquistar Estalinegrado a Estaline significava um reforço da moral do exército Nazi e, em certa medida, uma mensagem para o resto do globo.
Hoje em dia é largamente aceite na historiografia que a abertura da nova frente de leste e, por conseguinte, a invasão da URSS, foi um ponto de viragem no desfecho da II Guerra Mundial. Porém, a escassez de petróleo na economia Nazi, não deixava outra alternativa senão a tentativa de conquistar o território soviético. A 1 de Junho de 1942 Hitler apregoava: «a minha principal ideia: ocupar a região caucásica, esmagar completamente as forças russas... se não recebo o petróleo de Maikop e Grosny, terei de acabar com esta guerra...»[2]

Importa, salientar que, no entanto, a vitória soviética na frente leste foi condimentada por um importante contributo dos seus aliados, nomeadamente dos ingleses e dos EUA Se os primeiros estavam em contacto com Estaline, fornecendo desse modo informação confidencial (decifrada pela máquina Enigma) sobre as movimentações nazis, os segundos conseguiram fornecer 56 mil telefones de campanha, 381 milhas de fio para as comunicações e 81 mil metralhadoras Thompson.  

A rendição do 6º exército Nazi, comandado por Friedrich Paulus, foi a machadada final na frente leste, citando Eric Hobsbwam, «de Estalinegrado em diante, todos sabiam que a derrota da Alemanha era só uma questão de tempo»[3].

Portanto, Estalinegrado foi crucial para o desfecho da II Guerra Mundial, mas também para a consolidação, e o devido reconhecimento, da União Soviética no plano internacional. De facto, a posição de negociação de Estaline perante Roosevelt e  Churchill ficou musculada e pujante. Estaline, que tinha negociado um pacto de não-agressão com Hitler, acaba por representar o coveiro de Hitler. 

Todavia, a atitude de Estaline, em sintonia com uma parte da direção do PCUS, nem sempre foi a mais feliz, perante a ameaça beligerante nazi. É já sabido que Estaline foi largamente alertado pelos serviços secretos soviéticos sobre um iminente ataque nazi. Richard Sorge, um brilhante espião soviético, que manteve uma relação íntima com a esposa do embaixador alemão em Tóquio, alertou sem sucesso os lideres soviéticos de que estava previsto um ataque à URSS. O próprio líder da NKVD, o sinistro Lavrenti Beria, escreveu uma carta a Estaline no dia anterior à invasão nazi, na qual afirmava: «mais uma vez insisto que se convoque e castigue Dekanozov, o nosso embaixador em Berlim que me continua a bombardear com «relatórios sobre os alegados preparativos de Hitler para um ataque à URSS. Indicou que o ataque teria lugar amanhã... Mas eu e o meu assessor, Iosif Vissarionovich, gravámos indelevelmente na nossa memória a sua sábia conclusão: Hitler não nos vai atacar em 1941»[4].

Além da recusa de Estaline em interpretar a valiosíssima informação secreta sobre as movimentações militares dos exércitos de Hitler, decorreram ainda várias interferências no interior do exército soviético, facultando desse modo o sucesso militar inicial de Hitler. Se por um lado, é dada a ordem de proibição à  implementação de planos militares de cariz defensivo contra uma eventual invasão, por outro, o próprio alto comando militar soviético estava debilitado devido às purgas de 1937-38. Por exemplo, dos cinco marechais da União Soviética, três tinham sido mortos nessas purgas. É bastante pertinente relembrar que entre esses três marechais mortos estava o Marechal Tukhachevsky, que em 1936 afirma categoricamente, na Academia de Formação Geral, que o inimigo contra quem a URSS devia estar militarmente preparada era, nada mais, que a Alemanha Nazi. A preocupação deste Marechal estava relacionada com o ataque relâmpago (blitzkrieg) aperfeiçoado pela máquina de guerra Nazi. Tukhachevsky foi detido e fuzilado em Junho de 1937.

Embora «nuca se deve esquecer [...] que a União Soviética perdeu muito mais vidas do que qualquer outro estado combatente durante a Segunda Guerra Mundial, que o grosso dessas mortes foi provocado pela barbaridade da invasão Nazi, e que mais do que qualquer outro país, foram as forças da União Soviética que derrotaram a Alemanha Nazi na guerra terrestre na Europa»[5]. É indispensável deslindar o papel negligente, particularmente,  de Estaline na II Guerra Mundial.


[2] Citando em A.I. Eremenko, Estalinegrado, p. 20.

[3] Eric Hobsbwam, A Era dos Extremos. História breve do século XX 1914-1991, p. 49.

[4] citado em, Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo, p. 170.


[5] Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo, p. 172.