sábado, 16 de março de 2013

Comunicação na apresentação do livro - O Republicanismo na Póvoa de Santa Iria - Elementos para a história da freguesia.

Boa noite,
Vou dividir a minha comunicação em dois tópicos: um sobre a história deste projecto, o outro sobre algumas conclusões da investigação.

É pertinente lembrar que de hoje em diante, embora em vertentes distintas, há três livros em torno da história da Póvoa: uma cronologia da autoria de António Godinho; Crónicas e Roteiros das Ruas da Póvoa Antiga de António José Torres; e uma investigação sobre o republicanismo povoense.
A ideia deste projecto remonta a finais de 2009/inícios de 2010 devido, em grande medida, ao Centenário da Implantação da República em Portugal.
É um livro de história cuja a investigação foi feita em arquivo, e tinha como objectivo descobrir, analisar e, por conseguinte, construir conhecimento sobre os primórdios da organização republicana na Póvoa de Santa Iria. Ou seja, perceber a dinâmica republicana na Póvoa antes do 5 de Outubro de 1910.
A investigação ficou delimitada na recta final da Monarquia, isto é, entre o início de 1900 até ao 5 de Outubro de 1910. Grande parte da informação foi retirada de vários jornais da época afectos ao republicanismo e ao Partido Republicano. De grosso modo, a investigação ficou praticamente concluída em 2010, no entanto, devido a vários entraves, não foi possível publicar o livro durante o Centenário da República.
Todavia, não deixa de ser interessante o facto do livro estar inicialmente previsto para 2010, durante o Centenário da República, e acaba por sair num ano em que o 5 de Outubro deixa de ser feriado nacional na República portuguesa.
Posto isto, passo então para um resumo da investigação sobre o Republicanismo Povoense na Alvorada do 5 de Outubro de 1910.
Em primeiro lugar, a penetração do ideal republicano na Póvoa está ligada  a vários vectores: 
  • Uma forte actividade comercial feita pela zona ribeirinha.
  • Uma crescente indústria.
  • As vias de comunicação, sobretudo a linha férrea.
  • A proximidade ao centro político do país, Lisboa.
  • O associativismo (Grémio e Associação de Socorros Mútuos - DORA).
Devemos ter noção que a Póvoa nessa época era uma localidade com poucas ruas, centrada em torno da estrada nacional e do apeadeiro do Comboio, onde viviam entre 700 a 800 habitantes. No fundo era uma zona onde habitualmente passavam mercadorias, pessoas e, com efeito, ideias.
No entanto, ao contrário de algumas povoações vizinhas à Póvoa, que também usufruíam das mesmas características, é possível verificar que o movimento republicano povoense é acentuadamente tardio.
Tudo faz indicar que é apenas em meados de 1906 que são difundidos os primeiros contactos públicos entre o Partido Republicano e os povoenses. Este contacto é remetido, inicialmente, para o interior de uma habitação. Ilustra bem esta ideia, a visita do futuro ministro, António José de Almeida, para realizar uma sessão pública na Póvoa nesse mesmo ano numa casa situada na antiga Rua do Caes. 

Não há dúvidas que na Póvoa havia alguns republicanos, porém, não havia Partido Republicano. 
É somente em finais de 1906 que é criada a 1º Comissão Paroquial Republicana. Uma sessão que é anunciada nos jornais e feita à  noite, em casa de Sabino Garcia Gomes[1].
Esta investigação ainda verificou que o republicanismo povoense tinha bastante apoio no interior das fábricas, havendo notícias de operários que foram despedidos por serem adeptos da República, e de outros que são ameaçados pelas chefias devido ao contacto que tinham com os jornais da esfera republicana. 
No próprio associativismo há importantes alterações , visto que os dirigentes do associativismo acabam por abraçar o ideal republicano, facilitando desse modo a escalada do republicanismo na zona.
Portanto, não é de admirar que acabe por ocorrer várias acções públicas dinamizadas pelos republicanos locais. De facto, é interessante perceber que os republicanos acabam por alargar a sua actividade para o espaço público, como se pode verificar pelos dois comícios do Partido Republicano na Póvoa. Nestes comícios houve a presença figuras de proa do republicanismo nacional.
O 1º comício em Março de 1908, e contou com a presença do já citado Afonso Costa, e é lida e aprovada uma moção, que está reproduzida no livro, a favor da implantada da República em Portugal.
O 2º comício ocorreu em Agosto de 1910 e contou com a presença do futuro Presidente da República, Bernardino Machado.

Todavia, a marca mais importante do republicanismo, na nossa opinião, é ter sido um importante actor histórico na criação da freguesia da Póvoa de Santa Iria. Nesta altura a Póvoa era apenas um bairro de Santa Iria da Azoia, ou seja, fazia parte desta freguesia.
No discurso republicano é evidente uma distinção entre a Póvoa e Santa Iria. Mesmo quando o partido republicano é organizado na freguesia, os republicanos tomam o cuidado de chamar a Comissão Paroquial Republicana da Póvoa e Santa Iria.
Basta pegar no jornal O Mundo desta época para verificar esta ideia. Este jornal republicano separa, acentuadamente, a Póvoa de Santa Iria. Em alguns casos, chega-se mesmo ao ponto de relatar uma notícia ocorrida em Santa Iria com o tópico de Póvoa de Santa Iria.  É importante aqui lembrar que foi o director deste jornal, França Borges, o responsável por elaborar e apresentar, no dia 27 de Abril de 1914, o projecto-lei que objectivava constituição da Póvoa de Santa Iria como freguesia. O projecto seria aprovado em Abril de 1916 pelo então Presidente da República, Bernardino Machado.
Curiosamente, são estes dois republicanos que anos antes tinham marcado presença na Póvoa em comícios, os responsáveis pela fundação da freguesia da Póvoa de Santa Iria.
Efectivamente, o republicanismo promoveu uma ruptura na freguesia de Santa Iria da  Azoia, com a criação da freguesia da Póvoa de Santa Iria.

A participação neste projecto, numa fase em que o país atravessa uma situação económica e social agónica, até com contornes dementes, apercebi.me  que as associações culturais deste tipo são cada vez mais importantes no país, visto que, por exemplo, podem funcionar como um espaço onde os mais jovens, licenciados ou não, conseguem dar corpo as suas aptidões, habilitações e projectos e, desse modo, enriquecer os seus currículos e dando importantes contribuições para a sua comunidade.
Certamente que a Associação Dom Martinho está aberta a futuros projectos, quer sejam no âmbito da fotografia, ciclos de cinema, debates em torno da história, da matemática, da física, da arte, da sociologia... do que for. Podem contactar a Associação através do facebook ou site, ou até pessoalmente.
Posto isto, gostava de agradecer a todos os que ajudaram e apoiaram este projecto. 

À Associação Dom Martinho, nomeadamente, a José Canha e António Nabais por terem acreditado sempre no projecto.
Um agradecimento especial aos meus país por todo o apoio, bem como à Inês Leitão que arduamente e mais uma vez mostrou o seu trabalho artístico na páginação e grafismo do livro.
Ao Pedro Aguiar que por várias vezes foi ao arquivo comigo, ajudando desse modo na pesquisa da informação.
Por fim, a uma pessoa muito especial, a minha namorada que também é uma grande amiga. Anabela Oliveira, que já deve estar mais que farta deste projecto, bem como dos outros todos, mas mesmo assim continua a prestar atenção e apoio.

A todos vós, um muito obrigado pela atenção.


Grémio Dramático Povoense,
Póvoa de Santa Iria,
02-02-2013
João Lázaro.



[1] É, de facto, o homem forte da República na Póvoa. Foi em sua casa que foi eleita a 1º comissão paroquial republicana, bem como alguns convívios com importantes personalidades republicanas. Por exemplo, no final de um comício de 1908, no qual marcou presença o ilustre líder republicano Afonso Costa, foi servido em casa de Sabino Garcia Gomes um copo de água, e o próprio Afonso Costa deu o mote para os brindes, agradecendo a Sabino e sua esposa, e de seguida brindou: «ao povo republicano da Póvoa».
Em jeito de curiosidade, acaba por sair da Póvoa, em 1909, rumo a Vila Franca de Xira, onde vai assumir o cargo de Presidente da Comissão Paroquial Republicana e, já durante a República, vai ser Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira por duas vezes. Portanto, é um republicano recordado pelos jornais como uma personalidade, «a quem o partido deve sacrifícios na organização local da Póvoa».


sábado, 9 de fevereiro de 2013

70 anos da vitória do Exército Vermelho em Stalinegrado.


O dia 02 de Fevereiro é marcado pela estrondosa derrota Hitler na ensanguentada batalha de Estalinegrado e, com efeito, o fim da ofensiva militar na URSS (Barbarossa). Verdadeiramente, a frente leste pode ser caracterizada por uma autêntica hecatombe humana, nomeadamente nas batalhas de Estalinegrado, de Ursk e de Moscovo. Nesta última (Setembro de 1941 a Abril de 1942) foram mortos 926 mil soldados soviéticos, ou seja, as baixas soviética numa única batalha ultrapassam as baixas conjuntas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos ao longo da Guerra. Na batalha de Estalinegrado — uma das mais sangrentas batalhas da história da humanidade — foram mortos cerca de 800 mil alemães, destruídas 10 mil peças de artilharia e cerca de 2 mil tanques.  Ao passo que, no lado soviético os números apontam para mais de 1 milhão de soldados mortos. É de frisar que a média de vida de um novo soldado na frente era apenas de um dia, a batalha estava tão intrincada que houve locais estratégicos da cidade que mudaram de mãos dezenas de vezes. Como salienta o historiador Adam Tooze, «nunca antes, nem depois, se travou batalha com tanta ferocidade, com tantos homens e numa frente de batalha tão extensa»[1]
A batalha pelo controle da cidade ainda tinha uma forte vertente simbólica, visto que o nome da localidade era uma homenagem a Estaline. Conquistar Estalinegrado a Estaline significava um reforço da moral do exército Nazi e, em certa medida, uma mensagem para o resto do globo.
Hoje em dia é largamente aceite na historiografia que a abertura da nova frente de leste e, por conseguinte, a invasão da URSS, foi um ponto de viragem no desfecho da II Guerra Mundial. Porém, a escassez de petróleo na economia Nazi, não deixava outra alternativa senão a tentativa de conquistar o território soviético. A 1 de Junho de 1942 Hitler apregoava: «a minha principal ideia: ocupar a região caucásica, esmagar completamente as forças russas... se não recebo o petróleo de Maikop e Grosny, terei de acabar com esta guerra...»[2]

Importa, salientar que, no entanto, a vitória soviética na frente leste foi condimentada por um importante contributo dos seus aliados, nomeadamente dos ingleses e dos EUA Se os primeiros estavam em contacto com Estaline, fornecendo desse modo informação confidencial (decifrada pela máquina Enigma) sobre as movimentações nazis, os segundos conseguiram fornecer 56 mil telefones de campanha, 381 milhas de fio para as comunicações e 81 mil metralhadoras Thompson.  

A rendição do 6º exército Nazi, comandado por Friedrich Paulus, foi a machadada final na frente leste, citando Eric Hobsbwam, «de Estalinegrado em diante, todos sabiam que a derrota da Alemanha era só uma questão de tempo»[3].

Portanto, Estalinegrado foi crucial para o desfecho da II Guerra Mundial, mas também para a consolidação, e o devido reconhecimento, da União Soviética no plano internacional. De facto, a posição de negociação de Estaline perante Roosevelt e  Churchill ficou musculada e pujante. Estaline, que tinha negociado um pacto de não-agressão com Hitler, acaba por representar o coveiro de Hitler. 

Todavia, a atitude de Estaline, em sintonia com uma parte da direção do PCUS, nem sempre foi a mais feliz, perante a ameaça beligerante nazi. É já sabido que Estaline foi largamente alertado pelos serviços secretos soviéticos sobre um iminente ataque nazi. Richard Sorge, um brilhante espião soviético, que manteve uma relação íntima com a esposa do embaixador alemão em Tóquio, alertou sem sucesso os lideres soviéticos de que estava previsto um ataque à URSS. O próprio líder da NKVD, o sinistro Lavrenti Beria, escreveu uma carta a Estaline no dia anterior à invasão nazi, na qual afirmava: «mais uma vez insisto que se convoque e castigue Dekanozov, o nosso embaixador em Berlim que me continua a bombardear com «relatórios sobre os alegados preparativos de Hitler para um ataque à URSS. Indicou que o ataque teria lugar amanhã... Mas eu e o meu assessor, Iosif Vissarionovich, gravámos indelevelmente na nossa memória a sua sábia conclusão: Hitler não nos vai atacar em 1941»[4].

Além da recusa de Estaline em interpretar a valiosíssima informação secreta sobre as movimentações militares dos exércitos de Hitler, decorreram ainda várias interferências no interior do exército soviético, facultando desse modo o sucesso militar inicial de Hitler. Se por um lado, é dada a ordem de proibição à  implementação de planos militares de cariz defensivo contra uma eventual invasão, por outro, o próprio alto comando militar soviético estava debilitado devido às purgas de 1937-38. Por exemplo, dos cinco marechais da União Soviética, três tinham sido mortos nessas purgas. É bastante pertinente relembrar que entre esses três marechais mortos estava o Marechal Tukhachevsky, que em 1936 afirma categoricamente, na Academia de Formação Geral, que o inimigo contra quem a URSS devia estar militarmente preparada era, nada mais, que a Alemanha Nazi. A preocupação deste Marechal estava relacionada com o ataque relâmpago (blitzkrieg) aperfeiçoado pela máquina de guerra Nazi. Tukhachevsky foi detido e fuzilado em Junho de 1937.

Embora «nuca se deve esquecer [...] que a União Soviética perdeu muito mais vidas do que qualquer outro estado combatente durante a Segunda Guerra Mundial, que o grosso dessas mortes foi provocado pela barbaridade da invasão Nazi, e que mais do que qualquer outro país, foram as forças da União Soviética que derrotaram a Alemanha Nazi na guerra terrestre na Europa»[5]. É indispensável deslindar o papel negligente, particularmente,  de Estaline na II Guerra Mundial.


[2] Citando em A.I. Eremenko, Estalinegrado, p. 20.

[3] Eric Hobsbwam, A Era dos Extremos. História breve do século XX 1914-1991, p. 49.

[4] citado em, Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo, p. 170.


[5] Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo, p. 172.