quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Banditismo social descoberto por Eric Hobsbawm




Eric Hobsbawm, conhecido na esfera mediática como o «professor universitário que gosta de jazz e que continuou no Partido Comunista mais tempo que a maior parte dos outros»[1], e considerado como um dos melhores historiadores de sempre, faleceu no passado 1 de Outubro. Nascido no Cairo em 1917 (ano da Revolução de Outubro), a sua trajetória de vida será bastante agitada. Por exemplo, está presente na recta final da República de Weimar; consegue visitar clandestinamente uma Espanha mergulhada numa sangrenta guerra civil; foi intérprete durante um encontro de Che Guevara, entre outros.

Desde de muito cedo abraça as ideias marxistas e comunistas, ficando filiado no Partido Comunista da Grã-Bretanha até muito tarde, contudo é com Partido Comunista Italiano, e sua história, que tem uma forte e sentida ligação. Um indivíduo fruto do seu tempo, que apesar de tudo persistiu «a tratar a memória e a tradição da URSS com uma indulgência e uma ternura que não [sentia] pela China Comunista, porque perten[cia] a uma geração para a qual a Revolução de Outubro representava a esperança do mundo, coisa que a China nunca significou»[2]. Foi, de facto, alguém que presenciou tempos interessantes, acabando por escrever uma recomendável autobiografia.

Hobsbawm ainda redigiu uma valiosíssima obra historiografia, na qual sobressai a História Social do Jazz, a História do Marxismo em vários volumes, Rebeldes Primitivos, Bandidos, Nações e Nacionalismo desde 1780, a Invenção da Tradição, e a trilogia da Era do Capital, do Império e dos Extremos.

A ele se deve a introdução de um novo e brilhante leque de novos conceitos na história, influenciado outras ciências sociais. É o caso do conceito da Invenção da tradição, o the short twentieth century (que começa em 1914 e acaba em 1991) e do banditismo social. Este último, foi desenvolvido no livro Primitive Rebels e, sobretudo, em Bandits. Ambos os livros nunca foram traduzidos em Portugal.

Eric Hobsbawm, observa o banditismo social como um fenómeno muito específico. O historiador chega, inclusive, a resgatar a origem da palavra bandido, chegando à conclusão de que o termo tem origem em bandito (italiano), que designava um indivíduo «placed outside the law»[3], portanto, banido.

De uma forma sintética, o banditismo social é um fenómeno oriundo do mundo rural, que abarca a ideia de defender os mais fracos face a opressão dos mais fortes. Há, de facto, um juízo de justiça na acção dos bandidos sociais. Por conseguinte, o bandido social é encarado, por uma parte da camada da sociedade, nomeadamente, pelo mundo camponês, como um herói e protegido por tal. Este tipo de bandido é alguém que é incapaz de extorquir os camponeses, contudo não pensa duas vezes quando se trata de extorquir a propriedade do Senhor ou o próprio Estado. A esta luz, o próprio banditismo social é, em grande medida, a aquisição de uma liberdade, pois os bandidos sociais estão à margem da sociedade. No entanto, é necessário frisar que «o banditismo social é um protesto, sim, mas modesto e não revolucionário. Ele protesta não contra o facto de que os camponeses sejam pobres e oprimidos, mas sim contra o facto de que ás vezes sejam excessivamente oprimidos. Não é esperado que estes bandidos-heróis construam um mundo de igualdade»[4]. Ademais, o banditismo social é uma reacção típica à penetração do mundo moderno em determinados modos de vida e de produção. Portanto, não é portador de um projecto de transformação na sociedade. É deste modo que se consegue explicar, por exemplo a forte repulsa rural na Andaluzia, no século XIX, à introdução das novas relações sociais e legais de natureza capitalista na região; e a emergência do ludismo (destruidores de máquinas), que continha uma efervescência hostil à utilização da mecanização do trabalho, propiciada pelo advento da revolução industrial.  

Outro facto interessante descoberto por Hobsbawm, é que estamos perante um fenómeno universal que, no entanto, não está sujeito a nenhuma baliza cronológica rígida, pois se surge num determinado momento na Europa, surge noutro distinto na América Latina.  Casos como a figura mítica de Robin Hood (que em Inglaterra roubava aos ricos para dar aos pobres, e que mesmo ainda nos tempos vigentes significa algo no mundo rural); de Ned Ludd (suposto líder do ludismo, que iniciou a revolta e a destruição de várias máquinas que substituíam o trabalho manual em Inglaterra); de Jesse James (que nos EUA nunca roubava pregadores, viúvas, órfãos ou ex-confederados); Pancho Villa (que com a revolução mexicana, 1910, ocorre a transformação de bandido em revolucionário); e os cangaceiros (no Brasil, grupos armados que tentavam obter alimentos e resistir ao recrutamento militar obrigatório), atestam a universalidade do banditismo social.

Nas palavras de Hobsbwam, o banditismo social foi, porventura, a mais primitiva forma de organização de protesto social  que conhecemos. E, portanto, os «bandidos e salteadores que no passado apenas preocupavam a polícia, deviam também preocupar o historiador»[5].  




[1] Eric Hobsbawm, Tempos Interessantes. Uma vida no Século XX, p. 289.
[2]Eric Hobsbawm, Tempos Interessantes. Uma vida no Século XX, p. 83.
[3]Eric Hobsbawm, Bandits, p. 12.
[4] Eric Hobsbawm, Primitive Rebels, p. 24.
[5]Eric Hobsbawm, Primitives Rebels, p. 13.



 

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