Eric
Hobsbawm, conhecido na esfera mediática como o «professor universitário que
gosta de jazz e que continuou no Partido Comunista mais tempo que a maior parte
dos outros»[1], e considerado
como um dos melhores historiadores de sempre, faleceu no passado 1 de Outubro.
Nascido no Cairo em 1917 (ano da Revolução de Outubro), a sua trajetória de
vida será bastante agitada. Por exemplo, está presente na recta final da
República de Weimar; consegue visitar clandestinamente uma Espanha mergulhada numa
sangrenta guerra civil; foi intérprete durante um encontro de Che Guevara,
entre outros.
Desde
de muito cedo abraça as ideias marxistas e comunistas, ficando filiado
no Partido Comunista da Grã-Bretanha até muito tarde, contudo é com Partido
Comunista Italiano, e sua história, que tem uma forte e sentida ligação. Um indivíduo
fruto do seu tempo, que apesar de tudo persistiu «a tratar a memória e a
tradição da URSS com uma indulgência e uma ternura que não [sentia] pela China
Comunista, porque perten[cia] a uma geração para a qual a Revolução de Outubro
representava a esperança do mundo, coisa que a China nunca significou»[2].
Foi, de facto, alguém que presenciou tempos interessantes, acabando por
escrever uma recomendável autobiografia.
Hobsbawm ainda redigiu
uma valiosíssima obra historiografia, na qual sobressai a História Social do
Jazz, a História do Marxismo em vários volumes, Rebeldes
Primitivos, Bandidos, Nações e Nacionalismo desde 1780, a Invenção
da Tradição, e a trilogia da Era do Capital, do Império e dos
Extremos.
A ele se deve a
introdução de um novo e brilhante leque de novos conceitos na história, influenciado
outras ciências sociais. É o caso do conceito da Invenção da tradição, o the
short twentieth century (que começa em 1914 e acaba em 1991) e do banditismo social. Este último, foi
desenvolvido no livro Primitive Rebels e, sobretudo, em Bandits. Ambos
os livros nunca foram traduzidos em Portugal.
Eric Hobsbawm, observa
o banditismo social como um fenómeno muito específico. O historiador chega,
inclusive, a resgatar a origem da palavra bandido, chegando à conclusão de que
o termo tem origem em bandito
(italiano), que designava um indivíduo «placed
outside the law»[3],
portanto, banido.
De uma forma
sintética, o banditismo social é um fenómeno oriundo do mundo rural, que abarca
a ideia de defender os mais fracos face a opressão dos mais fortes. Há, de
facto, um juízo de justiça na acção dos bandidos sociais. Por conseguinte, o
bandido social é encarado, por uma parte da camada da sociedade, nomeadamente,
pelo mundo camponês, como um herói e protegido por tal. Este tipo de bandido é
alguém que é incapaz de extorquir os camponeses, contudo não pensa duas vezes
quando se trata de extorquir a propriedade do Senhor ou o próprio Estado. A
esta luz, o próprio banditismo social é, em grande medida, a aquisição de uma
liberdade, pois os bandidos sociais estão à margem da sociedade. No entanto, é
necessário frisar que «o banditismo social é um protesto, sim, mas modesto e
não revolucionário. Ele protesta não contra o facto de que os camponeses sejam
pobres e oprimidos, mas sim contra o facto de que ás vezes sejam excessivamente
oprimidos. Não é esperado que estes bandidos-heróis construam um mundo de
igualdade»[4].
Ademais, o banditismo social é uma reacção típica à penetração do mundo moderno
em determinados modos de vida e de produção. Portanto, não é portador de um
projecto de transformação na sociedade. É deste modo que se consegue explicar,
por exemplo a forte repulsa rural na Andaluzia, no século XIX, à introdução das
novas relações sociais e legais de natureza capitalista na região; e a emergência
do ludismo (destruidores de máquinas), que continha uma efervescência hostil à
utilização da mecanização do trabalho, propiciada pelo advento da revolução
industrial.
Outro facto
interessante descoberto por Hobsbawm, é que estamos perante um fenómeno
universal que, no entanto, não está sujeito a nenhuma baliza cronológica
rígida, pois se surge num determinado momento na Europa, surge noutro distinto
na América Latina. Casos como a figura mítica
de Robin Hood (que em Inglaterra roubava aos ricos para dar aos pobres, e que
mesmo ainda nos tempos vigentes significa algo no mundo rural); de Ned Ludd (suposto
líder do ludismo, que iniciou a revolta e a destruição de várias máquinas que
substituíam o trabalho manual em Inglaterra); de Jesse James (que nos EUA nunca
roubava pregadores, viúvas, órfãos ou ex-confederados); Pancho Villa (que com a
revolução mexicana, 1910, ocorre a transformação de bandido em revolucionário);
e os cangaceiros (no Brasil, grupos armados que tentavam obter alimentos e
resistir ao recrutamento militar obrigatório), atestam a universalidade do
banditismo social.
Nas
palavras de Hobsbwam, o banditismo social foi, porventura, a mais primitiva
forma de organização de protesto social
que conhecemos. E, portanto, os «bandidos e salteadores que no passado
apenas preocupavam a polícia, deviam também preocupar o historiador»[5].
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