quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Eutanásia



Em 1977 o historiador Philippe Ariès publicava a interessante obra intitulada “O homem perante amorte”, escrevendo sobre o debate existente nas sociedades contemporâneas em «melhorar a morte no hospital […] mas com a condição de que não saia de lá». Contudo alertava a existência de «uma falha na cintura medicalizada, por onde a vida e a morte, tão cuidadosa separadas, poderiam bem juntar-se numa vaga de tempestade popular: é a questão da eutanásia». Philippe Ariès deslinda o olhar das sociedades sobre a morte ao longo dos séculos. Enquanto sociedade temos enormes dificuldades em debater abertamente a morte. Individualmente temos também essa dificuldade e não será errado supor que todos os marxistas, os materialistas históricos, ateus e amante da ciência acabem por colocar o pensamento em contradição e, desse modo, o que outrora era mais do que óbvio é contestado. No íntimo a ideia metafisica que, de uma maneira ou de outra, voltarás a estar com os mortos acaba por vencer a lógica. Carl Sagan, no livro Cosmos, demonstrou que somos construídos da mesma matéria que as estrelas, narrando que a água é convidativa pois sabemos que é la a nossa origem e, por isso, desejamos retornar. Todavia, na solidão do pensamento o nosso maior anseio será o regresso para com os nossos mortos. Se tudo fosse perfeito, no final seremos mais que matéria e átomos…

Portanto, não é fácil abordar a morte o que, obviamente, coloca enormes dificuldades em debater a eutanásia. A palavra eutanásia deriva do grego e significa literalmente “boa morte”, um final sem sofrimento. Tenho para mim que o debate em torno da eutanásia não é propriamente uma fronteira entre esquerda e direita e não será uma questão ideológica, embora exista, em certa medida, uma ligação histórica entre o suicídio e o socialismo (em Portugal temos o caso de José Fontana e Antero de Quental) que será alterada em 1911 com o suicídio de Paul Lafargue e Laura Marx (uma das filhas de Karl Marx). É um debate complexo onde é impossível camuflar a nossa experiência. Infelizmente, todos tivemos alguém a combater no inferno que é o cancro, hospitalizado com alguma doença incurável ou acamado por incapacidade. Todos temos um enorme desgaste emocional pelas experiências dos amigos. Portanto, a experiência pessoal acaba por ser fundamental no debate em torno da eutanásia, vista por muitos como uma escolha individualista, mas no fundo é uma decisão centrada no coletivo, nomeadamente, permitir ao coletivo que é a nossa rede de amigos, família e ao próprio ter a opção de escolha. Pensas na justiça da opção da eutanásia quando coabitas com o sofrimento, a tristeza e a falta de dignidade na morte; quando não há cura possível nem cuidados paliativos; quando a ciência fracassa e a fé não dá força; quando o capitalismo mercantiliza a medicina e os cuidados de saúde; quando a pessoa solicita ao médico ou à entidade omnipotente o acesso a uma morte digna.

O debate eutanásia deve estimular e destacar os cuidados paliativos. Que este debate seja também centrado em torno da salvaguarda do Sistema Nacional de Saúde. Devemos [re]frisar que a maior parte dos doentes continua a não ter acesso aos cuidados paliativos. O SNS devia ter mais camas e melhorar as condições. Somente em 2019 é que foi criado o estatuto do cuidador é importante aprofundar e consolidar esse processo. É urgente alterar o regime laboral para os doentes crónicos. Com eutanásia, ou sem ela, uma vida digna passa imperativamente pelo acesso ao combate da doença com dignidade.

Seja qual for o resultado da votação no parlamento, que o debate seja desenvolvido pela comunidade científica, partidos políticos, constitucionalistas, que se respeite as escolhas de cada um e, principalmente, que o tema eutanásia não nos dívida mais do que a própria morte.